Interpretando a Bíblia

...vocês não receberam palavra de homens, mas, segundo a verdade, a palavra de Deus, que agora atua em vocês, os que creem. 1 Tessalonicenses 2:13

Qual a melhor maneira de interpretarmos o que lemos na Bíblia?


A Sagrada Escritura é um dos maiores tesouros da Igreja, e ela proclama a Palavra de Deus escrita em cada liturgia: a Missa, a Liturgia das Horas, o Rito do Batismo, o Rito da Confirmação, o Matrimônio e na celebração de todos os outros Sacramentos. A Igreja também encoraja os fiéis a lerem as Escrituras para estudo, meditação e oração devocional. Para chegarmos a uma interpretação correta e precisa das Escrituras, devemos atentar, em primeiro lugar, para a intenção de cada um dos Autores Sagrados, os estilos literários que cada um empregou e a linguagem simbólica que cada um utilizou; em segundo lugar, devemos ler cada passagem da Palavra de Deus dentro do contexto das Escrituras como um todo, da Sagrada Tradição e das verdades doutrinais e morais ensinadas pela Igreja Católica.

Nós também damos graças a Deus sem cessar, porque, ao receberem a palavra de Deus por nos ouvirem, vocês não receberam palavra de homens, mas, segundo a verdade, a palavra de Deus, que agora atua em vocês, os que creem. 1 Tessalonicenses 2:13

Os padres do Concílio Vaticano II identificaram três critérios principais para a interpretação das Escrituras. Devemos atentar para os seguintes:


  • Tenha em mente o "conteúdo e a unidade" de toda a Escritura.
  • Ler as Escrituras dentro da "Tradição viva de toda a Igreja".
  • Preste atenção à "analogia da fé", que é definida como "a coerência das verdades da fé entre si e dentro de todo o plano da Revelação". (Cf. CIC 112-114)


A Sagrada Tradição da Igreja reconhece também que as Escrituras têm um sentido literal, que constitui a base para a compreensão de todos os "sentidos" das Escrituras, e um sentido espiritual, que consiste no seguinte:


  • O sentido alegórico, que considera pessoas e eventos do Antigo Testamento como uma prefiguração de pessoas e eventos do Novo Testamento.
  • O senso moral, que examina a mensagem ou lição para a conduta humana adequada.
  • o sentido anagógico, em que os conceitos e eventos são vistos como prenúncios da vida eterna no Céu. (Cf. CIC 115-118)


O Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 109, e os parágrafos 115-117 abordam essa questão.

-A Bíblia Didaquê


A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho.

Salmos 119: 105


Qual a melhor maneira de compreendermos o Antigo Testamento?


Começando por Moisés e todos os profetas, ele lhes explicou o que constava a respeito dele em todas as Escrituras... Então os olhos deles se abriram e o reconheceram, mas ele desapareceu da vista deles. Disseram, então, um ao outro: "Não estavam ardendo os nossos corações enquanto ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?"

(Lucas 24:27, 31-32)


O Antigo Testamento compreende uma gama diversificada de livros ricos em história, ensinamentos, alegorias e simbolismos. A Igreja nos convida a compreender o sentido literal e o sentido espiritual das Escrituras e a relação entre eles, a fim de extrair toda a profundidade e riqueza da Palavra de Deus.

Sentido literal

Ao ler o Antigo Testamento, é importante compreender primeiro o sentido literal de uma passagem, seu significado mais imediato e direto. O que o autor inspirado estava tentando dizer? "Todos os outros sentidos da Sagrada Escritura são baseados no literal" (STh 1,1,10, ad I). (Cf. CIC 116)


Para isso, devemos considerar o gênero literário da passagem. Trata-se de história, direito, sabedoria, poesia, profecia, apocalíptico, carta, épico ou alegoria? Cada tipo transmite suas verdades de maneira um tanto diferente e deve ser lido de acordo. Por exemplo, o relato da criação revela Deus como o Criador de todas as coisas e a ordem e bondade de sua criação. Destaca-se nessa narrativa a dignidade exaltada da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.


No entanto, devemos evitar ler o Antigo Testamento de forma literal. Uma interpretação literalista tornaria a terra imóvel, plana e apoiada em pilares (cf. 1 Samuel 2:8; Jó 9:6); além disso, monstros marinhos seriam colocados como guardiões nas margens dos mares (cf. Salmos 104; Jó 41).

Sentido Espiritual

O sentido espiritual também é importante para evocar o significado pleno daquilo que o Espírito Santo pretende. O Catecismo descreve três sentidos espirituais principais, cada um dos quais oferece uma compreensão do significado das Escrituras à sua maneira particular:


  • o sentido alegórico, ou típico, que entende uma pessoa, lugar ou evento das Escrituras como sendo uma figura, ou tipo, de uma pessoa, lugar ou evento posterior (ver "Uma Explicação Apologética da Tipologia", p. 370);
  • o sentido moral, ou tropológico, que compreende como as pessoas, os lugares e os eventos das Escrituras podem ser modelos de comportamento correto e podem nos ensinar sobre dignidade e responsabilidade pessoal; e
  • O sentido anagógico, que compreende como os ensinamentos da Escritura conduzem à vida eterna. (Cf. CIC 116-117)


O Catecismo da Igreja Católica aborda essa questão nos parágrafos 116-117.

-A Bíblia Didaquê

"Se você acredita no que gosta nos evangelhos e rejeita o que não gosta, não é no evangelho que você acredita, mas em si mesmo." - Santo Agostinho de Hipona, anos 354-430

O que é tipologia?

A morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram conforme o padrão da transgressão de Adão, que é uma figura daquele que havia de vir. (Romanos 5:14)


Muitas figuras, temas e eventos contidos no Antigo Testamento apontam para algo que aparece no Novo Testamento. Essas tipologias, ou "tipos", ilustram como, nas palavras de Santo Agostinho, "O Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo Testamento é revelado no Novo" (cf. DV16). Isso tem sido reconhecido desde o início da Igreja (cf. 1 Cor 10,6.11; Hb 10,1; 1 Pe 3,21).


As Sagradas Escrituras compreendem dois testamentos, mas constituem um único ato de Revelação Divina, uma só Palavra de Deus. O Antigo e o Novo Testamento possuem uma unidade na sua abrangente narrativa da história da salvação e na riqueza da crescente autorrevelação de Deus ao homem, uma Revelação que culmina e se completa em Jesus Cristo, que é a plenitude da Revelação de Deus. Essa unidade entre os testamentos torna-se mais evidente através da tipologia, ou seja, das pessoas e eventos do Antigo Testamento (tipos) que prefiguram Cristo e sua missão salvífica no Novo Testamento (antítipos).


Na história dos discípulos a caminho de Emaús (cf. Lc 24,13-35), eles não compreenderam essas tipologias, exceto em retrospectiva, quando Cristo explicou como sua vida, morte e ressurreição cumpriram a Antiga Aliança. É mais um caminho para que "Deus seja tudo em todos" (1 Coríntios 15,28). Como cristãos, lemos o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento, com seus relatos evangélicos da morte e ressurreição de Cristo. Mesmo assim, o Antigo Testamento tem um valor próprio: é a Revelação de Deus plenamente realizada em Cristo. (Cf. CIC 129)



O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 128 a 130, aborda essa questão.

-A Bíblia Didaquê

O que queremos dizer quando afirmamos, por exemplo, que Adão é um "tipo" de Cristo?


Está escrito: "O primeiro homem, Adão, tornou-se um ser vivente", e o último Adão, um espírito vivificante.

(1 Coríntios 15:45)


É através da tipologia que São Paulo vê Adão como uma prefiguração de aspectos particulares de Cristo, que é o primeiro homem da Nova Criação. Até mesmo a serpente erguida por Moisés numa vara para curar o povo é vista como um tipo de Cristo (cf. João 3:14).

 

Existem também várias ligações com os Sacramentos e outras realidades do Novo Testamento; por exemplo, é através da tipologia que estudiosos e Padres da Igreja frequentemente encontram referências à água no Antigo Testamento que prefiguram o Batismo.